EDUCAÇÃO FÍSICA - IFMT - campus São Vicente

EDUCAÇÃO FÍSICA - IFMT - São Vicente

OBJETIVO DO BLOG: proporcionar um espaço de reflexão sobre os elementos da cultura corporal de movimento (jogos, dança, lutas, ginástica, esporte, expressão corporal) e suas relações com a educação, lazer, saúde, ludicidade, cidadania, socialização etc.

Você pode ler os textos e assistir aos vídeos, deixar sua opinião, concordar, concordar parcialmente, discordar, polemizar, lançar novas reflexões, relatar suas experiências com as aulas práticas de Educação Física etc. Seja bem vindo!!! Participe com a gente!!

Alunos do IFMT - campus São Vicente, este blog é nosso! Nossas aulas de Educação Física tem continuidade aqui!!!

OBS.: NÃO SE ESQUEÇAM DE COLOCAR O NOME E A TURMA!!


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Esporte, portadores de necessidades especiais e solidariedade


Há alguns anos atrás, nas Olimpíadas Especiais de Seattle, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para largada da corrida dos 100 metros rasos. 


Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. 

Todos, com exceção de um garoto, que tropeçou no asfalto, caiu rolando e começou a chorar. 

Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Então eles viraram e voltaram. Todos eles. 

Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou, deu um beijo no garoto e disse: "Pronto, agora vai sarar". 

E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. 

O estádio inteiro levantou e os aplausos duraram muitos minutos. E as pessoas que estavam ali, naquele dia, continuam repetindo essa história até hoje. 

Talvez os atletas fossem portadores de necessidades especiais... Mas, com certeza, não eram deficientes da sensibilidade... Por que? Porque, lá no fundo, todos nós sabemos que o que importa nesta vida é mais do que ganhar sozinho. 



Preconceito é a principal causa de estresse no futebol feminino



Para mais da metade das atletas entrevistadas, visão "sexista" da sociedade sobre o futebol feminino é a maior geradora de problemas na saúde emocional. A pesquisa ainda aponta preconceito como violador de Direitos Humanos. O preconceito é a principal causa de estresse emocional entre atletas de futebol feminino. É o que mostra uma pesquisa da Instituto de Psicologia (IP) da USP. "Esta foi minha primeira constatação. E é bom lembrar que o estresse emocional é prejudicial à saúde", diz o professor Jorge Dorfman Knijnik, autor do estudo. 

O pesquisador conta que o esporte foi escolhido como tema por representar uma marca cultural brasileira. "O objetivo é discutir as relações sociais de gênero numa sociedade em que existe uma comparação 'natural' da mulher com o homem. E também provocar uma tomada de consciência que leve à criação de espaços esportivos não sexistas". Em seu doutorado, Dorfman, que é professor da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, teve a orientação do professor Esdras G. Vasconcellos. O pesquisador entrevistou 33 atletas que disputaram o Campeonato Paulista Feminino de Futebol de 2004. Algumas dessas jogadoras compunham a Seleção Brasileira de Futebol Feminino que ganhou medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas, em 2004. Foi uma conquista histórica para o esporte, numa competição para a qual a equipe masculina nem chegou a se classificar. "Mesmo depois da vitória, a equipe feminina não recebeu nenhum tipo de incentivo", lembra Dorfman.



Resultados
A pesquisa revelou que 57,14% das jogadoras entre 16 e 21 anos apontaram o preconceito como principal causa de estresse no futebol. Dentre as jogadoras entre 22 e 27 anos, essa mesma causa foi apontada por 50% delas. O estudo também relaciona a questão aos Direitos Humanos. "Em segundo lugar, detectei que o preconceito gera discriminação social. E é aí que é possível fazer uma relação com os Direitos Humanos", explica. Segundo Dorfman, saúde e esporte são direitos garantidos a todos, e eles são violados quando o preconceito gera estresse ou quando a participação da mulher no futebol é limitada. Atualmente, verifica-se um aumento da participação da mulher dentro do esporte, mas a marca de uma sociedade "sexista" ainda se mantém. "Existe dentro do esporte uma 'polícia' do gênero. Ocorre uma forte normatização do comportamento das mulheres, que se verifica, por exemplo, no preconceito com aquelas que aparentam serem homossexuais". O pesquisador coloca ainda a questão do apelo sexual dentro desse controle.

Outro lado
Contudo, Dorfman ressalta que apesar do preconceito, as meninas se afirmam enquanto jogadoras. "A vontade de jogar e o amor pelo esporte são mais fortes que qualquer tipo de pressão ou discriminação", afirma. Questionadas se indicariam o futebol para uma menina que quisesse praticar um esporte, 61% das jogadoras entre 16 e 21 anos responderam positivamente. O resultado foi um pouco diferente entre a faixa dos 22 e 27 anos: apenas 38,46% indicariam. "Essa diferença nos leva a uma análise otimista.
A questão da presença da mulher no futebol está sofrendo avanços." Diante da pergunta sobre como elas acham que os outros as enxergam enquanto jogadoras de futebol, 42,31% das atletas na faixa dos 16 e 21 anos disseram ter apoio da família - a visão predominante. Por outro lado, entre as atletas dos 22 aos 27 anos, 46,67% indicaram o preconceito como visão principal sobre elas. As esportistas mais jovens mostram uma melhor perspectiva em relação à participação feminina no futebol.



Autora: Aline Moraes
Fonte: www.educacaofisica.org

Racismo no esporte




O barão Pierre de Coubertin, educador e filantropo francês, idealizou a união de todos os povos por meio do esporte nos moldes legados pela civilização grega, criando os Jogos Olímpicos da Era Moderna. A despeito dos ideais desse educador (que serve para todas manifestações esportivas), muitos têm ignorado o aspecto humanístico do esporte. E assim sendo, lamentamos (e nos preocupamos) profundamente com os últimos acontecimentos ocorridos no esporte mais popular do mundo, o futebol. Antes de tecermos alguns comentários sobre o futebol, voltemos no tempo e iremos encontrar um jovem que silenciou o homem mais soberbo e que pregava a eugenia das raças, Adolf Hitler. Esse jovem chamava-se Jesse Owens. Na verdade, tratava-se de um apelido, pois seu verdadeiro nome era James Cleveland Owens. O fato é que ele nas Olimpíadas de Berlim (1936) obteve quatro medalhas de ouro e dois recordes olímpicos no atletismo. Ele derrubava assim a idéia nazista de superioridade da raça ariana e, o mais interessante, diante dos olhos atônitos do Führer. Outro fato marcante na história do esporte ocorreu no México em 1968 com os corredores norte-americanos Tommie Smith, medalha de ouro, e John Carlos, medalha de bronze nos 200m rasos. Quando estavam na premiação, eles ergueram uma das mãos que estava com uma luva preta e a mantiveram cerrada ao ar. Esse protesto ficou indelével e ocorreu devido ao racismo até então existente nos EUA. Uma história que corrobora como era a violência naquele país é bem retratada no filme "Duelo de Titãs", onde o ator principal Denzel Washington interpreta um treinador negro de uma equipe de futebol americano. Ele conseguiu naquela ocasião unir brancos e negros por meio do esporte. (Esse filme é baseado em fatos reais). Não podemos olvidar da luta hercúlea do venerável Martin Luther King, prêmio Nobel pela Paz e que lutou de força pacífica contra o Racismo. Em relação ao fato ocorrido com o jogador de futebol do São Paulo, Grafite, é realmente triste tudo o que ocorreu, pelos motivos supracitados da relevância e do papel do esporte no mundo. Na Europa, a situação é ainda mais caótica, há torcedores com bandeiras nazistas e quando um jogador negro está com a posse da bola, os torcedores jogam bananas no campo, fazem barulhos referentes ao macaco etc. Nos perguntamos: E as autoridades? Creio que a atitude para esse tipo de comportamento deve ser severa, não com violência, pois esta só gera mais violência. Mas as punições devem ser aplicadas. O que percebemos é uma passividade das pessoas diante dessas situações que só tendem a crescer e a tomarem proporções gravíssimas! O que mais me deixou estupefato foi o fato de algumas pessoas, inclusive brasileiras, dizerem: "Ah, isso é o calor do jogo"; "Acho que foi exagero fazer isso!" etc. Isso é o mais absurdo! A maioria dos problemas mundiais advém do verbo mal empregado. Se o homem soubesse utilizar de maneira correta a língua, muitos conflitos seriam evitados. Particularmente o racismo, não é possível que mesmo de "brincadeira" ou que tenha ocorrido somente no "campo", nós fiquemos calados! Isso nunca! Por isso, fica meu apelo a todos que almejam um mundo melhor. Não é admissível que em pleno século XXI as pessoas briguem por causa da cor da pele. O racismo deve acabar! Aos futuros educadores físicos e aos atuais, deixo meu "grito" de atenção: ensinem seus alunos a se respeitarem e se amarem! Encerro esse singelo apelo com um acróstico: Razão é o bem mais precioso do homem. Amor é do que precisamos! Caminhemos de mãos dadas. Ignoremos as diferenças, respeitemos o próximo. Somos todos irmãos. Mudança já! Ode a todas as raças e a beleza da Vida.

Autor: Marcos Paulo de Oliveira Santos

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mais doping no esporte brasileiro

Mariana Ohata - triatleta
O escândalo do doping no esporte brasileiro em 2009, com cinco atletas flagrados em junho e dois suspensos preventivamente no atletismo, mais o caso de Mariana Ohata no triatlo, não vai ficar por aí. Na semana que vem, mais casos virão a público - e serão no ciclismo -, conforme apurou o R7José Luiz Vasconcellos, presidente da CBC (Confederação Brasileira de Ciclismo), afirmou nesta sexta-feira (9) à tarde que não recebeu nenhum comunicado sobre o assunto por parte da UCI (União Ciclística Internacional). - Para nós, por enquanto isso é boato. 

Este ano, o atletismo foi responsável por um vexame às vésperas de seu Mundial de Berlim, em agosto: parte da delegação brasileira - justamente os atletas flagrados com EPO (eritiropoietina) - teve de retornar ao país. 
O técnico Jayme Netto Júnior assumiu a culpa pelo doping dos atletas Bruno Tenório, Jorge Célio Sena, Josiane Tito, Luciana França e Lucimara Silvestre. Os cinco foram pegos em antidoping de 15 de junho, em Presidente Prudente, interior de São Paulo, e confirmados no início de agosto. Bruno, Jorge e Lucimara abriram mão da contraprova e já estão suspensos por dois anos. Evelyn Carolina Oliveira Santos e Rodrigo Bargas também admitiram que tomaram injeções da droga e também foram suspensos, preventivamente. 
Na quarta-feira (7), a triatleta Mariana Ohata teve confirmado seu doping pela segunda vez, com um diurético (furosemida) que mascara drogas proibidas. Foi suspensa por seis anos, como reincidente, já que havia sido em 2002, ao ser pega com um estimulante (efedrina). 

Até agora, o ano que mais marcou o doping no Brasil havia sido 2002. Foram 15 casos no total, segundo relatório do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), com a meio-fundista Fabiane dos Santos pega pela segunda vez (nandrolona em 1995 e testosterona em 2001). Só do ciclismo foram oito casos, com mais um no judô, um no triatlo, três no atletismo e um no basquete. As suspensões foram de dois meses a banimento do esporte, no caso de Fabiane. 
Em 2007, a natação foi a "campeã" de casos. Apenas Rebeca Gusmão respondeu a três acusações. Mas oito nadadores já haviam sido condenados, desde 2002: Renata Burgos (2006), Danilo Correga (2006), Laura Azevedo (2004 e 2003), Leonardo Costa (2004) e Juliana Kury (2004). Foi o país com maior número de dopados pegos na natação - à frente dos Estados Unidos.

Fonte: Publicado no R7 Esportes - em 09/10/2009 - por Denise Mirás


Rebeca Gusmão - ex-nadadora



QUAL SUA OPINIÃO SOBRE O DOPING NO ESPORTE? QUEM SÃO OS RESPONSÁVEIS? QUAIS AS PUNIÇÕES DEVERIAM SER APLICADAS? COMENTE!!! 

terça-feira, 20 de julho de 2010

Nacionalismo via futebol - Em 1970 e 2014


De quatro em quatro anos vemos no Brasil o que alguns estudiosos chamam de "nacionalismo cíclico", decorrente da paixão pelo futebol e da torcida pela seleção brasileira nas Copas do Mundo de Futebol. Este nacionalismo é em grande parte estimulado pela mídia, mas é fato que brasileiros de todos os cantos do país se sentem mais orgulhosos em vestir a camisa da seleção e exibir as cores nacionais, enfeitam fachadas de suas casas, do comércio, dos shoppings e prédios públicos, podemos ver bandeiras do Brasil ou nas cores verde e amarela em carros, janelas etc.

Sendo assim, compare o hino "Pra frente Brasil" da Copa de 1970 com o comercial "Brasil - bem-vindo 2014" do Banco Itaú, e expresse sua opinião sobre o nacionalismo cíclico. 








  







Copa do Mundo - Futebol e orgulho nacional




Se o futebol desperta imenso interesse em quase todo mundo, é por ser mais que um jogo. Se a Copa do Mundo provoca, de quatro em quatro anos, entusiasmo mesmo em quem não acompanha cotidianamente o futebol, é porque ela não é apenas uma disputa esportiva. Sua história é, em certo sentido, a história do mundo contemporâneo.

Por exemplo, as Copas do Mundo corporificam o orgulho nacional. A primeira edição foi organizada em 1930 pelo Uruguai para festejar o centenário de sua independência. No dia da partida decisiva de 1934, o importante jornal italiano Corriere della sera escreveu que hoje “seremos invadidos pela divina paixão que inevitavelmente está em tudo o que é nosso, em tudo que tem a marca da nossa raça”. Em 1954, a Alemanha, debilitada material e moralmente pela Segunda Guerra Mundial, recuperou o amor-próprio e o respeito internacional graças à inesperada conquista da Copa. O mesmo evento, em 2006, permitiu a esse país manifestações patrióticas até então evitadas devido ao sentimento de culpa pelo passado nazista. Em 1986, Maradona reconheceu que a partida contra os ingleses era bem mais que futebol, era revanche pela derrota na guerra das Malvinas, alguns anos antes.

Nas Copas do Mundo emergem diversas rivalidades. Em 1930, o consulado uruguaio em Buenos Aires foi atacado por uma multidão inconformada com a derrota para o país vizinho. Em 1938, a partida entre Áustria e Hungria foi uma verdadeira batalha, refletindo as tensões não resolvidas das longas décadas em que as duas nações tinham vivido politicamente unidas e culturalmente afastadas. Em 1950, a Argentina recusou participar da Copa simplesmente porque ela ocorreria no Brasil. Em 1974, a seleção alemã foi vaiada em Hamburgo porque nela havia muitos jogadores do Bayern de Munique; quatro dias depois, porém, o público da mesma cidade apoiou com fervor o time diante dos irmãos inimigos da Alemanha Comunista.

Governos de todas as colorações políticas sempre depositam muitas expectativas nas Copas. O famoso telegrama que Mussolini enviou aos jogadores italianos antes da final de 1938 nada tinha de ambíguo: “vencer ou morrer”. João Goulart explicou à delegação que se dirigia ao Chile, em 1962, que a Copa do Mundo “faz os brasileiros esquecerem nossas dificuldades econômicas, e assim é mais preciosa que o arroz”. A ditadura militar acompanhou de perto a preparação para a Copa de 1970, esperando dividendos políticos do tricampeonato. O mesmo interesse foi dedicado pelos militares argentinos à organização da Copa de 1978. Mas o uso político de Copas do Mundo não é exclusividade de países sem tradição democrática. Na França de 1998 tanto o presidente direitista quanto o primeiro-ministro socialista esperavam que a Copa amenizasse a “fratura social”. Também movimentos não governamentais tentaram utilizar-se do prestígio da competição. Em fins de 1977 foi lançado, por meio do Le Monde, um movimento de boicote à Copa na Argentina para pressionar sua ditadura militar.

(...).



O Brasil com sua paixão pelo futebol não poderia escapar à lógica histórica das Copas. Cada uma delas parece despertar o fraco sentimento nacional. Tanto o populismo de esquerda de Goulart celebrou em 1962 “a vitória da nação”, quanto a ditadura militar de direita procurou em 1970 associar-se ao tricampeonato. Os jogadores brasileiros nunca são simplesmente selecionados, como na maioria dos países, e sim “convocados” a servir a pátria. Como Dunga definiu na recente entrevista coletiva na qual anunciou o grupo para a próxima Copa, ali “vamos sofrer, vamos sangrar”. Nessa missão os jogadores “estão preparados para se doar e vencer pelo país”, pois “cada um que está aqui tem que ser patriota”. De maneira coerente, Dunga não se define como especialista em futebol (técnico ou treinador) e sim como “comandante da seleção”. Enquanto os italianos torcem pela Azzurra, os franceses pelos Bleus, os ingleses pelo English Team, os alemães pela Nationalmannschaft, os brasileiros torcem pelo Brasil. Ou seja, fazemos pequena distinção entre a seleção de futebol e o país. A vitória ou derrota de um parece ser a do outro. O auxiliar-técnico Jorginho explicitou tal concepção na mesma entrevista – a “seleção brasileira é nossa pátria”. O país é visto como um bloco único no qual não apenas o atleta deve ser patriota, todo cidadão também é de certa forma convocado: “peço que o torcedor goste do nosso país”, conclamou o comandante.

Enfim, para quem deseja não ser apenas sujeito da história, mas também agente, a Copa que se aproxima pode servir não somente para torcer como também para pensar o mundo em que vivemos.

Hilário Franco Júnior é professor da USP, autor dentre outros de A dança dos deuses. Futebol, sociedade e cultura, Companhia das Letras, 2007.

FONTE: Le Monde Diplomatique Brasil - Ano 3, n. 35, junho de 2010.

Copa do Mundo - A autoestima dos brasileiros



Futebol, definitivamente, não é só um jogo. É patrimônio cultural, mitologia contemporânea, criação artística coletiva. É ferramenta de inclusão social, instrumento de coesão nacional, elemento de construção da identidade coletiva. E um negócio fabuloso.

A Copa do Mundo é o ápice inconteste de todos esses aspectos. É o marco unificado no calendário de centenas de nações normalmente desencontradas na contagem do tempo. O direito de participar de uma Copa é disputado ao longo de vários anos (as eliminatórias sul-americanas começaram em outubro de 2007). O direito de sediar uma Copa, por período ainda mais extenso. A Rússia já defende sua candidatura a país sede de 2018, tendo como rivais Inglaterra, Espanha e Portugal (juntos), bem como Bélgica e Holanda. Estados Unidos, Qatar, Coreia, Japão e Austrália se oferecem para 2022.

(...).
Trégua e anestesia

Os apelos à paixão e solidariedade não são meros artifícios. Assim como em outros grandes negócios – cinema, música – a exploração comercial não suprime os sentimentos e emoções que, de fato, acompanham a atividade.

Entrou para a história a trégua estabelecida durante uma guerra civil no antigo Congo Belga, em 1969, para que a delegação do Santos de Pelé pudesse transitar e jogar em segurança...

Em plena crise política, os hondurenhos deixaram suas diferenças de lado na noite em que o país se classificou para a Copa, e as ruas ficaram lotadas com a comemoração. Na Sérvia, a classificação para a Copa também propiciou raro momento de unidade e orgulho nacional.

Caso emblemático de injeção de ânimo foi a vitória da Alemanha na Copa de 1954 (retratada no filme “O Milagre de Berna”) quando o pais se encontrava em ruínas. Um segundo momento como esse foi quando a Alemanha sediou a Copa de 2006 e o povo exultou com a possibilidade de se mostrar amistoso e unido, 16 anos depois da queda do Muro. “Queremos demonstrar que somos um país democrático, que respeita a integridade humana”, disse Peter Struck, ministro da Defesa, em evento promovido pela Fundação Friedrich-Ebert, em sua sede em Berlim, pouco antes do início da Copa: “Does Football Rule The World?” (“O Futebol Rege o Mundo?”). Seu propósito era discutir os efeitos de grandes eventos esportivos para o conjunto da sociedade a curto e médio prazo.

Curiosamente, o aspecto puramente comercial não pareceu, na ocasião, tão bem resolvido quanto os candidatos a país sede acreditam ou dão a entender.

Os organizadores da Copa de 2002 na Coreia apresentaram o balanço de seus investimentos: as receitas com patrocinadores e ingressos não cobriram as despesas com o evento. O número esperado de turistas, 540 mil, não foi atingido – chegou-se a 450 mil. O incremento na atividade turística e comercial depois da Copa também não durou como esperavam. Portanto, os resultados “tangíveis” foram negativos – o que valeu foi o “intangível”: “o aumento da autoconfiança no país, um ‘upgrade’ no espírito de que ‘nós podemos’, uma vitrine para a divulgação de produtos e tecnologia reforçando nossa imagem no exterior”.

A conclusão dos representantes de Portugal (sede da Eurocopa 2004) e da França (Copa do Mundo de 1998) não foi diferente. Os eventos proporcionaram a aceleração de algumas obras e investimentos, mas a um custo altíssimo – inclusive o de manutenção, que é permanente.

Na Alemanha, a Copa ajudou a reformar e revitalizar estruturas antigas – o metrô, em Munique, havia sido construído para a Olimpíada de 1972 – e serviu como impulso para concluir projetos de infraestrutura por meio de parcerias entre governo e iniciativa privada. Mas os organizadores se ressentiam das condições leoninas impostas pela FIFA – que exige uma série de garantias governamentais e isenção tributária sobre todas as suas atividades no país. O fator “risco” é todo do país sede. O fator “lucro” é da FIFA, que recebe milhões (em direitos de transmissão, acima de tudo) sem risco algum. Em longo prazo, o desempenho econômico recente de países que foram sedes de grandes eventos demonstra, de forma clara, que o efeito de uma Copa ou Olimpíada pode ser tão volátil quanto a glória esportiva. Atenas recebeu os Jogos Olímpicos seis anos atrás e nem por isso a Grécia escapou de enorme crise. O Japão se debate com altas taxas de desemprego e déficit público altíssimo.

A caminho de sediar dois grandes eventos, o Brasil já não precisa seduzir a comissão julgadora, mas os investidores. Os benefícios para a autoestima dos brasileiros e prestígio internacional já se fazem sentir; não podemos pôr a perder esse que é o único ganho indiscutível. O desafio agora é dar transparência aos custos e à execução dos projetos. O aficionado por futebol sabe que a organização é a melhor moldura para o talento; que improviso funciona quando há entrosamento; que autoconfiança em excesso prejudica o desempenho, e que não adianta comemorar antes do fim do jogo. Que façamos uma boa Copa e que os ganhos sejam mesmo da nação, e não apenas dos proprietários da marca registrada.

Soninha é jornalista especializada em futebol, vereadora de São Paulo e integrante do Conselho Editorial de Le Monde Diplomatique Brasil.

FONTE: Le Monde Diplomatique Brasil - Ano 3, n. 35, junho de 2010.